O que achar de Norv Turner como OC?

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No começo da semana Mike Shula foi demitido para a alegria dos torcedores dos Panthers. Shula que certamente era o treinador mais odiado das Carolinas. O desgosto por Shula era compreensível, sua previsibilidade das chamadas era realmente insuportável em certos momentos. Porém, quem acompanha esse site há mais tempo e com mais atenção, sabe que eu era um dos defensores de Shula, não por achar um grande OC, mas um razoável coordenador, acima do demônio que muitos o pintavam. Cheguei a falar um pouco disso nesse post.

Certamente uma de suas qualidades era implementar jogadas criativas do College para o playbook. Para resumir o trabalho de Shula: um bom designer de jogadas e um ruim chamador de jogadas. Em sua passagem pelo Panthers, Shula ficou ranqueado assim na liga:

mike-shula-statsComo podemos ver, em todas as temporadas no Panthers, Mike Shula colocou o time dentro do top-20 em pontos. Guarde esses dados.

Também vale lembrar que assim como Newton, Shula nunca teve um ótimo material humano para trabalhar. Lembra do boato que Shula estava batendo na mesa para draftarem Hunter Henry (TE) ou Derick Henry (RB) em 2016? Ao invés disso, decidimos ir com Vernon Butler (DT). Antes do draft passado nós só selecionamos um jogador ofensivo na primeira rodada desde que Shula assumiu como OC (Kelvin Benjamin). E se formos pensar na Free Agency, o melhor jogador, discutivelmente, tenha sido o WR Ted Ginn Jr. Ano passado, nós mudamos essa filosofia quando selecionamos CMC e Curtis Samuel, mas infelizmente Samuel e Byrd se machucaram e tivemos que jogar o Wild Card com 4 WRs de practice squad.

Apesar das dificuldades, Ron Rivera garantiu que não haveria mudanças no staff, a não ser caso houvesse promoções para HC para os coordenadores em outros times. Surpreendentemente, 16 horas depois, houve o anúncio da demissão de Shula, o que pegou todos de surpresa. Questionado sobre a mudança repentina, Ron afirmou que ficou estudando na madrugando e achou melhor a troca. Ele mudou de opinião em horas, ora, ele não sabia como funcionava o ataque antes? Mas ninguém se importou em questionar isso, afinal, Mike Shula estava demitido e isso que importava.

Horas antes da coletiva em que Ron Rivera justificaria a demissão de Shula, já começou a surgir o boato de que Norv Turner, amigo de Rivera, com quem tinha trabalhado nos Chargers quando Ron ainda era treinador de LBs e depois foi promovido para Coordenador Defensivo, seria contratado. Os rumores faziam sentido pois Turner estava desempregado desde 2016, quando saiu pela porta dos fundos em Minnesota.

Na coletiva do anúncio da demissão, Ron ao ser perguntado sobre o perfil do novo OC, respondeu: “Ele precisa ter tido experiência no College há muito, muito, muito tempo atrás e experiência na NFL na maior parte do tempo.”

Repararam na quantidade de “muito”? Rivera deixou claro desde o início que iria contratar um OC antigo. Adeus modernidade e adeus esperanças de termos um novo Sean McVay ou Kyle Shanahan, que a propósito, existem treinadores com esse perfil disponíveis no mercado e além do mais, quem não iria gostar de trabalhar com Cam Newton e Christian McCaffrey? É o sonho de qualquer OC criativo e moderno.

Após o fim da coletiva, o nome de Turner ficou mais forte, pois se encaixava perfeitamente com o que disse Rivera, mas ele também disse que tinha uma lista de nomes para OC. Então ainda existia chances para um outro nome surgir. Não surgiu, apenas o nome de Turner foi especulado e foi o único que fez entrevista para o cargo, mostrando que foi o único nome que passou pela cabeça de Rivera. Albert Breet, do Sports Illustrated escreveu:

“Falando em Carolina, eu acredito que a ideia de Ron Rivera em demitir o OC Mike Shula e o QB coach Ken Dorsey foi apenas uma questão de oportunidade. Wilks tem trabalhado em juntar Norv Turner como um potencial OC, o que deixou Rivera alerta da situação sabendo que Norv Turner estava disponível, o que o fez agir.”

turner-primeira-unica-opcaoOu seja, Mike Shula só foi demitido porque Norv Turner estava disponível. Não havia outros nomes, não houve estudo na madrugada por parte de Rivera que o fez mudar de ideia.

Mas qual é o problema de Norv Turner e por que a preocupação com ele? Turner é um técnico que teve muito sucesso nos anos 90, ganhando 3 Super Bowl’s em 4 anos, mas não faz um bom trabalho desde 2011.

stats-norv-turnerNote como em 6 anos, Turner só ficou dentro do top-20 em pontos em duas ocasiões(2011 – 5º lugar e 2015 – 16º lugar).

Turner é um técnico ultrapassado e antiquado, curiosamente, exatamente o que Rivera estava procurando. Na coletiva, Rivera disse que precisa tornar o time novamente um time cujo jogo corrido é a principal arma, e que se você controlar o relógio e tiver mais de 100 jardas terrestres, em 70% dos jogos sairá vitorioso. Nós vimos o que aconteceu no jogo de Wild Card contra os Saints, onde controlamos o relógio, tivemos mais de 100 jardas terrestres, paramos o jogo terrestre deles e mesmo assim perdemos.

Para o lugar de Ken Dorsey, o filho de Norv Turner, Scott, irá assumir a posição de treinador de QBs. Scott foi consultor do ataque de Michigan no ano passado. Michigan que possui um dos ataques mais apáticos e sem graça de toda a FBS.  Em jardas por jogo, o ataque de Michigan fica em 105 de 129 times. Certamente não é um número para se orgulhar.

ataque-michiganAlém de ter sido consultor em Michigan, ele também foi o treinador de QBs em Minnesota, quando o pai era o OC.

Além de Scott, mais dois Turners fazem parte do staff de Ron Rivera: o seu xará, Ron Turner, irmão de Norv, que é um consultor de ataque, e o sobrinho Cameron, que é o assistente de quarterbacks. Mais old school que isso não há.

Como é o ataque de Norv Turner?

O ataque de Turner é o famoso Air Coryell. O torcedor do Panthers já está acostumado com esse ataque e provavelmente já deve ter ouvido falar, pois foi o nosso ataque com o Shula por um bom tempo. A filosofia do Air Coryell consiste em: correr muito, atacar verticalmente no jogo aéreo e usar muito play action, por isso é considerado um ataque previsível.

Costumamos considerar que em questão de material humano, o ataque ideal de Turner exige 5 coisas:

  1. Tamanho na posição de WR
  2. Um Tight End que estique o campo
  3. Um power running back
  4. Um running back ágil que seja envolvido no jogo aéreo.
  5. Bons offensive tackles que consigam dar tempo para o QB lançar bolas longas

Em seu tempo em Minnesota, Turner tinha 3 dos 5 itens.

Não tinha um WR grande. Tinha o TE Kyle Rudolph que se encaixava bem esticando o campo. Tinha o seu power back em Adrian Peterson e também tinha o seu RB ágil em Jerick McKinnon. Mas também não tinha bons OTs. Por coincidência, ou ironia do destino, Matt Kalil era seu LT.

Em seu tempo em San Diego, Turner também tinha 3 dos 5 itens, em 2011, e menos do que isso em 2012.

Pensando no roster do Panthers, também consigo chegar em 3 dos 5.

Certamente temos:

Tamanho em Devin Funchess. Check. TE que estica o campo? Check. Power running back? Hmm, não acredito mais no Stew, precisamos draftar um novo RB para isso. Running back ágil que seja envolvido no jogo aéreo? Conhecem alguém assim? Muito check. Bons OT’s? Not check.

Indo para o Draft conseguimos resolver um desses itens, mas o quinto seria improbabilíssimo, já que Matt Kalil tem um contrato gordo e teremos de aguentá-lo por mais um ano pelo menos.

Pensando pelo lado positivo, podemos preencher 4 dos 5 itens, o que já seria mais do que Turner teve na última década.

Playbook Turner

Separei algumas jogadas tiradas diretamente do playbook de Norv Turner para exemplificar melhor a sua filosofia de jogo. Abaixo, um exemplo das jogadas que demoram para desenvolver e que podem expor nossos Tackles. A única rota curta é a do checkdown com o RB.

long-developing

Outra jogada com a mesma forma da de cima. Jogadas assim estão cheias no playbook de Turner.long-developing-2

Abaixo, o conceito Yankee. Já falei sobre ele com o Mike Shula usando e funcionando.yankee-concept

Na próxima, vemos algo que confirma a necessidade de um RB ágil. RB vai na rota Texas, a mesma que CMC usou para marcar o TD contra NO.texas-route

Outra coisa que vi no playbook de Turner que achei interessante é ver como ele valoriza o motion. Ele até mesmo dedicou uma página falando do motivo de gostar tanto:

motionsApenas para título de curiosidade, perguntaram para o Troy Aikamn qual era a sua jogada favorita com o Norv.

Fui atrás para ver a jogada, embora dê para se desenhar apenas pela chamada.

favorite-play-aikman

Nota-se que há uma diferença na chamada, mas o “Scat” é apenas a chamada da proteção da linha ofensiva e o “Swing” é a chamada para o Halfback.

O pessoal do Cat Scratch Reader conseguiu encontrar essa jogada recentemente no jogo de Indianapolis, que tem o OC Rob Chudzinski que é discípulo de Turner.

No lugar de TY Hilton, nós podemos ter o CMC fazendo o motion para o slot e fazendo jogadas como essa. Para fecharmos o playbook de Turner, separei mais uma jogada que podemos ver como Olsen e CMC devem participar bastante desse ataque. O TE faz uma rota longa, os dois recebedores uma comeback e o Fullback (está desenhado como FB, mas vejo o CMC fazendo isso) faz uma pivot route.

pivot-route

O playbook de Turner é muito do que já vimos em Carolina antes com Chudzinski e com o próprio Mike Shula. Ambos podem ser considerados discípulos de Turner. Dessa vez, Rivera resolveu trazer o mestre de uma vez.

O meu problema com Norv Turner é que tínhamos a chance de modernizar o nosso ataque, mas continuamos no old school football previsível de sempre. Que aliás sempre foi a maior crítica ao trabalho de Norv. Um resumo de suas chamadas pode ser feito da seguinte forma:

1 down – Corrida por dentro
2 down – Corrida por fora
3 down – Passe longo

Sua teimosia também é algo criticado até mesmo por Mike Zimmer, seu antigo HC.

HC Mike Zimmer falando sobre o novo OC Pat Shurmur logo após a saída de Turner

HC Mike Zimmer falando sobre o novo OC Pat Shurmur logo após a saída de Turner

A parte boa é que Ron Rivera e Norv Turner concordam em muitas situações e não devem ter muitos problemas, até porque os dois são amigos de longa data também. E Norv Turner quando saiu do Vikings foi perguntado se era a última vez que treinaria e se aposentaria: “Com 64 anos, para continuar, precisa ser o lugar certo com as pessoas certas.”

Norv Turner deve acreditar que temos um time próximo do que ele considera o ideal, fora que temos um Quarterback que também vai se encaixar nesse sistema dele, a única grande questão é como Turner vai tratar o Newton como arma terrestre, pois ele nunca teve um QB móvel como Cam e tirar essa parte do jogo dele é tirar uma de suas grandes habilidades. As corridas desenhadas e zone reads precisam continuar no playbook.

Apesar da previsibilidade e da falta de inovação, acredito que o time consiga acabar se encaixando, principalmente por conta de Cam Newton. Mas também precisamos de um bom Draft e uma boa free agency. Um ou dois WRs precisam ser adicionados no time, um power back e outro TE também tem que ser tratado como prioridade.

Que venha a Free Agency.

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Sobre o Autor

Fã de Carolina Panthers desde 2011, Felipe é programador e se aventura como Running Back nas peladas tentando incorporar o espírito de Jonathan Stewart, mas o máximo que consegue é ser um Trent Richardson. Twitter: @lipevieira

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