Violência policial em Charlotte: 3 visões sobre o assunto

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Esse post é um agrupamento de três textos de três pessoas diferentes, cada uma com a sua formação e origem diferentes. A ideia é dar visões diferentes sobre a desigualdade racial nos EUA.

TEXTO 1 – Lucas Alencar, branco, formando em Serviço Social, torcedor do Panthers desde 2015 (@AssimFalouLucas)

Na tarde dessa terça feira, durante o cumprimento de um mandato de prisão feito pela polícia de Charlotte, um homem preto de 43 anos foi assassinado a tiros em um estacionamento de um prédio residencial. A justificativa dos policiais presentes foi a de que Keith Lamont Scott, o homem preto assassinado, estaria armado e ameaçando a vida dos agentes presentes. Versão negada por familiares que alegaram que ele carregava um livro nas mãos e aguardava seu filho chegar da escola. Momentos antes, um vídeo que mostra outro homem preto sendo assassinado por policiais enquanto estava com as mãos erguidas, em Oklahoma, foi divulgado na internet, o que acabou resultando em fortes manifestações antiracistas na cidade de Charlotte.

CHARLOTTE, NC - SEPTEMBER 21: A woman smears blood on a police riot shield on September 21, 2016 in downtown Charlotte, NC. The North Carolina governor has declared a state of emergency in the city of Charlotte after clashes during protests in the city in response to the fatal shooting by police officers of 43-year-old Keith Lamont Scott at an apartment complex near UNC Charlotte. Sean Rayford/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Sean Rayford/Getty Images/AFP

Centenas de pessoas pretas foram as ruas mostrar suas revoltas com o genocídio permanente praticado pelo Estado e expressar as vontades pulsantes de viver. Cartazes como “deixem os pretos viverem” eram erguidos junto com paus e pedras lançados, com a precisão dos passes de Cam Newton, em direção aos grandes símbolos do capital e aos assassinos que não tardaram de violentar mais uma vez a população com tiros, bombas e sprays, garantindo assim a integridade da propriedade material como prioridade em relação a vida dos manifestantes.

Os atos de resistência dos pretos em Charlotte já duram quatro dias seguidos. Até agora, já foram registrados centenas de feridos, alguns presos e outro jovem preto, de 26 anos, também morto a tiros durante a repressão policial. Já no início do mês outras formas de manifestações contra a violência ficaram marcados, como a negação de jogadores da NFL de cantarem o hino nacional, justificando que não faz sentido exaltar uma bandeira que mata seus semelhantes. Alguns desses jogares receberam apoio, outros perderam patrocínios e estão com a carreira ameaçada.

Para quem ainda tem um mínimo de duvida da existência tensões raciais na maior democracia do mundo e talvez traduza os acontecimentos como alguns incidentes isolados, lembremos dos recentes assassinados de pretos em Louisiana e logo em seguida em Minnesota, gravados e publicados na internet; das lindas rebeliões em Baltimore que terminavam em noites de jovens com punhos cerrados, cantando e comemorando as pontuais oportunidades de experimentarem a vida com seus corpos inteiros.

Só neste ano a polícia norte americana já assassinou 173 pretos, segundo os dados de Washington Post. O que mostra como a pátria lida com suas minorias étnicas, se aproveitando das suas conquistas esportivas, cientificas, políticas e assassinando-as nas ruas dos bairros que essa mesma pátria os destinaram como estratégia de apartheid para embranquecer a nação.

6378888Das balas e pedras disparadas nas ruas da cidade da Carolina do Norte é possível traduzir toda uma história de racismo explícito na formação dos E.U.A, carregada de chicotes da escravidão, surras da KKK, expulsão dos pretos dos centros para os guetos e em contrapartida a resistência armada do Black Panther Party, o hip-hop, da desobediência civil de Muhammad Ali, a ira de Malcon X etc.

Nunca houve paz.

TEXTO 2 – Michel dos Reis, negro, formando em História, torcedor do Panthers desde 2014. (@jesuxmacaco)

A violência contra um homem negro desencadeou novamente uma onda de protestos em Charlotte, Estados Unidos. Mais uma vez policiais assassinam um homem desarmado. E provavelmente serão indiciados, mas inocentados.

Se 24 anos atrás a polícia de Los Angeles estava em foco por brutalmente espancar Rodney King e cometer uma série de assassinatos contra pessoas negras desarmadas, o estado da Carolina do Norte (North Carolina) é a bola da vez.

Para entendermos que essa violência contra pessoas negras não é de hoje, lembramos, que North Carolina é uma das 13 colônias originais que deram origem aos Estados Unidos. Lá se concentraram diversos negros que foram escravizados, foi lá também que anos depois utilizaram-se das leis Jim Crow e segregaram afro-americanos e brancos em espaços públicos.

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North Carolina e a KKK

Em uma região em que 65.3% da população é branca e que ainda carrega vestígios da Ku Klux Klan e do Partido Nazista dentro de instituições públicas, não me admira que a tensão racial fosse se elevar em algum momento, ainda mais no momento em que em outras regiões das colônias sulistas, negros se revoltam contra a violência policial.

Em Charlotte o principal astro da equipe de futebol americano da cidade é afro-americano, anteriormente em algumas entrevistas pareceu não entender o racismo que o cercava, talvez pensasse em ser apenas Cam Newton e um jogador de futebol americano, mas depois do que aconteceu com Keith Scott, Cam voltou atrás e finalmente fez declarações contra a opressão na região.

Nos protestos em Charlotte, infelizmente, já morreu outro homem afrodescendente que protestava contra a violência. Sinceramente, vejo essa questão com olhos de reação, assim como ocorreu em Los Angeles. Se isso surtirá efeito e pessoas negras desarmadas deixarão de ser mortas por policiais? Eu não sei. 24 anos atrás não resolveu, 40 anos atrás não resolveu, 50 anos atrás não resolveu, mas não podemos aceitar passivamente essa situação. Fazendo um paralelo com o Brasil, talvez se essa reação que ocorre toda vez que negros são mortos por oficiais ocorresse no Brasil, não teríamos a “Era das Chacinas” onde desde os anos 70, diversas pessoas negras são exterminadas pela polícia.

TEXTO 3 – Guilherme Spinelli, branco, formando em Economia, torcedor do Panthers desde 2004.

Desculpe o transtorno, preciso falar sobre a desigualdade nos EUA.

Muita gente se pergunta o porquê dessa revolta afroamericana, que teve seu estopim na morte de Keith Lamont Scott, homem de 43 anos vitimado por policiais inocentemente em Charlotte, nossa cidade. Vamos aos argumentos que levam a questionar o status quo norte americano.

O negro desarmado é morto 5x mais que o branco desarmado. Essa estatística demanda muito atenção ao ser analisada. Cerca de 70% dos americanos são caucasianos, enquanto apenas 12,5% da população é negra. O que leva a dois gráficos interessantes sobre a diferença racial nos USA.

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Índice de encarceramento dos que estão no college (universidade), os formados no ensino médio, e os que abandonaram o ensino médio.

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A relação entre esse índices são claros: a qualidade de vida e as capabilities do negro são menores que a do branco. A vida é a liberdade fundamental que um indivíduo tem, e as capabilities são capacidades que as pessoas possuem de levar o tipo de vida que elas valorizam. O método de avaliação é complexo e difícil de dissertar sobre, mas renda per capita não parece um modelo justo de análise, visto os gráficos acima e a renda de um negro americano ser bem menor de que a de um chinês ou indiano, mesmo assim, os membros desses dois países vivem muito mais que afroamericano. No caso, a análise via IDH ou HDI se faz mais viável relacionando aos Estados. O estado americano com maior HDI é o estado de Maine e o menor HDI pertence a Mississipi, ao analisar a representatividade nos Estados, Maine possui menos de 10% de negros e Mississipi tem quase 40% de Negros. Traduzindo os números, negros possuem menos acesso aos lugares com maior qualidade de vida nos Estado Unidos. O gráfico a seguir demonstra mais uma parte desse racismo.

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Porcentagem de retornos a interesses a entrevistas de emprego.

A diferença entre “nomes brancos e “nomes negros” nesse gráfico demonstra como um negro é privado de uma liberdade e não é habilitado a uma entrevista pelo nome. Acredito não ser coincidência que os 5 primeiros nomes da lista sejam “nomes brancos” e isso com certeza auxilia a uma diferença de renda que contribui, apesar de não ser fator crucial, para uma desigualdade que vem sendo chamada a atenção por jogadores da NFL. Puxado por Colin Kaepernick, as manifestações durante o hino vem crescendo nas primeiras semanas da temporada regular e atingiu Charlotte, que tem 35% de negros em sua população, após a morte de Keith Scott. Nos últimos dias cogitou-se a mudança do jogo contra os Vikings pela NFL, mas esta manteve o jogo no Bank of America Stadium. O governador de North Carolina decretou estado de emergência após os últimos protestos.

protestos-em-charlotteKeith Lamont Scott tinha 43 anos e morreu deixando 7 filhos e uma mulher com quem é casado há mais de 20 anos. No dia anterior a morte de Scott, outro negro, chamado Terrence Crutcher, 40 anos, foi morto mesmo desarmado em Tulsa, Oklahoma. Que finalmente, fiquem em paz.

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Sobre o Autor

Torcedor dos Panthers desde 2004, quando tinha apenas 5 anos, sempre manteve amor pelo time desde lá nunca deixando de divulgar seu amor pelo time mesmo com Jimmy Clausen como QB. QB do SP Tigers tem como grande inspiração o QB Cam Newton e suas corridas malucas

3 Comentários

  1. Sou fanático por Futebol Americano e pela historia americana, tendo vivido cerca de 2 anos nos EUA. Embora não seja leitor do site tive acesso ao texto por meio do twitter e gostaria de fazer algumas correções

    A maior democracia do Mundo é a Índia

    O maior IDH americano é o de Connecticut sendo que Maine não fica entre os 20 primeiros [1]

    A renda per capita do negro americano é quase 20x a renda de um Indiano médio. [2]

    A afirmação de que o negro é morto 5x mais que o branco desarmado é publicada pelo “Mapping Police Violence” [3] grupo que possui ligações ao Black Lives Matter, casos como o de um jovem atropelado acidentalmente por um caminhão policial e de pessoas consideradas armadas pela policia são colocados na equação, sendo que o mesmo não se aplica aos casos envolvendo brancos, logo são números inflados e desonestos. Os dados oficiais mostram números muito próximos envolvendo brancos e negros desarmados [4]

    [1] https://www.measureofamerica.org/maps/
    [2] http://www.theatlantic.com/international/archive/2014/10/what-if-black-america-were-a-country/380953/
    [3] http://mappingpoliceviolence.org/unarmed/
    [4] https://www.washingtonpost.com/graphics/national/police-shootings/?tid=a_inl

    • Não usei densidade demográfica como critério para adjetivar os E.U.A como a maior democracia do mundo. Eles mesmos se auto intitulam como “a maior”, por questões de soberania global e por conta da dinâmica descentralizada que o Estado-Nação possui em relação com os Estados federados, garantindo muitas independências e singularidades legais, os diferenciam uns dos outros. Enfim, no caso do meu texto, em especial, procurei ser irônico com esse titulo que eles tanto querem para si e só.

      Abraços!

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